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Henri Bergon e a música (A metáfora de Bergson e a nossa escuta musical - Bernardete Oliveira Marantes)

Uma imagem a miúdo usada para exprimir a descrição de continuidade da vida interior bergsoniana é aquela alusiva à música, ao ritmo, e mais frequentemente, à melodia. E buscando auxílio na arte musical, pergunta Bergson: “acaso se pode, sem desnaturá-la, encurtar a duração de uma melodia? A vida interior é exatamente essa melodia” (Bergson, 2006, p. 172). A trilha sonora interior, ou a melodia sucessiva da vida interior, vem a calhar como metáfora, pois, a música exige de seu ouvinte, diferentemente das outras artes, uma atenção à sucessão, visto que há uma temporalidade imanente a sua própria estrutura, já que “o som existe quando existe” (Piana, 1991, p. 141), e a nossa escuta musical só se realiza com o auxílio da memória e no e com o tempo. Desse modo, tomando como guia o categórico pensamento do filósofo, pode-se afirmar, tanto para a música quanto para a vida interior bergsoniana, a existência de uma consubstancialidade temporal manifesta entre o passado e o presente, e o exemplo...

O Nascimento da Tragédia – NIETZSCHE

Da mais elevada alegria soa o grito de horror ou o lamento anelante por uma perda irreparável. Naqueles festivais gregos prorrompia como que um traço sentimenta da natureza, como se ela soluçasse por seu despedaçamento em indivíduos. O cântico e a mímica desses entusiastas de tão dúplice disposição eram, para o mundo greco-homérico, algo de novo e inaudito: a música dionisíaca, em particular, excitava nele espantos e pavores. Se a música aparentemente já era conhecida como uma arte apolínea, ela o era apenas, a rigor, enquanto batida ondulante do ritmo, cuja força figuradora foi desenvolvida para a representação de estados apolíneos. A música de Apolo era arquitetura dórica em sons, mas apenas em sons insinuados, como os que são próprios da cítara. Mantinha-se cautelosamente a distância aquele preciso elemento que, não sendo apolíneo, constitui o caráter da música dionisíaca e, portanto, da música em geral: a comovedora violência do som, a torrente unitária da melodia e o mundo absolut...

O Mundo Como Vontade e Como Representação - SCHOPENHAUER

Após termos considerado até aqui todas as belas artes na generalidade adequada ao nosso ponto de vista, começando com a bela arquitetra, cujo fim enquanto tal é clarear a objetivação da Vontade no grau mais baixo de sua visibilidade em que ela se mostra como esforço regular, abafado e sem conhecimento da massa, já manifestando autodiscórdia e luta entre gravidade e rigidez; - e fechando a nossa consideração com a tragédia, a qual, no grau mais elevado de objetivação da Vontade, traz-nos diante dos olhos justamente aquele seu conflito consigo mesma, em terrível magnitude e distinção; após tudo isso , ia dizer, notam os que uma bela arte permaneceu excluída de nossa consideração e tinha de permanecê-lo, visto que, no encadeamento sistemático de nossa exposição, não havia lugar apropriado para ela. Trata-se da música. Esta se encontra por inteiro separada de todas as demais artes. Conhecemos nela não a cópia, a repetição no mundo de alguma Idéia dos seres; no entanto é uma arte tão elevad...

De Institutione musica – BOÉCIO - (Música em Pitágoras e Platão)

Disso resulta que, sendo quatro as disciplinas matemáticas, as outras se dedicam precisamente à busca da verdade, enquanto a música não só está associada à especulação, mas também à moral. Nada é tão típico da humanidade como relaxar-se com modos doces ou tornar-se tenso com os contrários. E esse fato não se restringe a uma ocupação ou a uma idade específica, mas se difunde por todas as ocupações; além disso, as crianças, os jovens e até mesmo os velhos são ligados aos modos musicais com espontânea disposição, de forma tão natural que, sem exceção, não há idade que seja contrária ao encanto de uma doce canção. Daí, então, pode-se perceber que não é desarrazoado o dizer de Platão: a alma do mundo foi unida de acordo com uma harmonia musical. Consequentemente, quando nosso interior está coeso e convenientemente ajustado, percebemos o que nos sons está ajustado de forma exata e conveniente e nos deleitamos com isso; também comprovamos que nós mesmos somos regidos pela mesma semelhança. Es...

Sobre a Música – PLUTARCO. (Uso da Música pelo Centauro Quíron)

E o nobre Homero ensinou que o uso da música é conveniente para o homem. Pois para demonstrar que a música é útil em muitas ocasiões, apresentou Aquiles digerindo sua ira contra Agamémnon através da música que aprendeu do sapientíssimo Quíron:  e encontraram-no deleitando seu espírito com a [melodiosa fórminge, bela obra de arte; em torno, argênteo jugo havia: escolheu-a dentre os espólios depois de destruir a [cidade de Eétion. Com ela alegrava seu coração e cantava glórias de homens (Ilíada, IX, 186-189.) “Aprende”, Homero está dizendo, “como se deve usar a música: pois era adequada a Aquiles, filho de Peleu, o justíssimo, cantar as glórias dos homens e os feitos dos semideuses.” Mais ainda, Homero, ensinando a ocasião mais apropriada do seu uso a quem está em ócio, mostrou que ela é um exercício útil e prazeroso. Pois Aquiles, apesar de ser guerreiro e homem de ação, por causa da sua ira que surgiu contra Agamémnon, não participava dos perigos da guerra. Homero, então, julgou se...

Força Estranha - Caetano Veloso

Eu vi um menino correndo Eu vi o tempo Brincando ao redor do caminho daquele menino Eu pus os meus pés no riacho E acho que nunca os tirei O Sol ainda brilha na estrada, e eu nunca passei Eu vi a mulher preparando Outra pessoa O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga A vida é amiga da arte É a parte que o Sol me ensinou O Sol que atravessa essa estrada que nunca passou Por isso uma força me leva a cantar Por isso essa força estranha Por isso é que eu canto, não posso parar Por isso essa voz tamanha Eu vi muitos cabelos brancos Na fronte do artista O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece Aquele que conhece o jogo Do fogo das coisas que são É o Sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão Eu vi muitos homens brigando Ouvi seus gritos Estive no fundo de cada vontade encoberta E a coisa mais certa de todas as coisas Não vale um caminho sob o Sol E o Sol sobre a estrada, é o Sol sobre a estrada, é o Sol Por isso uma força me leva a cantar Por isso essa força estranha Por...

3° encontro como tema: "Música e Filosofia"

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  “Sem a música, a vida seria um erro” Nosso terceiro encontro terá como tema Música e Filosofia e acontecerá na próxima quarta-feira (04/06) às 14:00 no lab. 6. Venha participar!

Parábola do Velho do Forte - Lieh-Tsé

 Um velho vivia com seu filho em um forte abandonado, no alto de um monte, e um dia perdeu um cavalo. Os vizinhos vieram-lhe expressar seu pesar por esse infortúnio, e o velho perguntou: – Como sabeis que é má sorte? Poucos dias mais tarde voltou seu cavalo com um bando de cavalos selvagens, e vieram os vizinhos felicitá-lo por sua boa sorte, e o velho respondeu: – Como sabeis que é boa sorte? Com tantas montarias a seu alcance, começou o filho a cavalgá-las, e um dia quebrou uma perna. Vieram os vizinhos apresentar-lhes condolências, e o velho respondeu: – Como sabeis que é má sorte? No ano seguinte houve uma guerra, e, como o filho do velho era agora inválido, não teve de ir para a frente. (YUTANG, Lin. A importância de viver. São Paulo: Círculo do livro, 1975. p. 154.)

O Ser e o Nada – Sartre

 O Futuro que tenho-de-ser, ao contrário, é de tal ordem em seu ser que somente posso sê-lo: porque minha liberdade o corrói em seu ser por debaixo. Significa que o Futuro constitui o sentido de meu Para-si presente, como o projeto de sua possibilidade, mas não determina de modo algum meu Para-si por-vir, já que o Para-si está sempre abandonado nesta obrigação nadificadora de ser o fundamento de seu nada. O Futuro não faz mais que pré-esboçar os limites nos quais o Para-si se fará ser como fuga presentificadora (présentificante) ao ser rumo ao outro futuro. É o que eu seria se não fosse livre, e o que só posso ter-deser porque sou livre. O Futuro, ao mesmo tempo que aparece no horizonte para me anunciar o que sou a partir do que serei ("O que está fazendo?"; "Estou pregando esse tapete, pendurando esse quadro na parede"), por sua natureza de futuro presente-para-si, se desarma, já que o Para-si que será, o será à maneira de se determinar a si mesmo a ser, e o Futuro...

O Eterno Retorno – F. Nietzsche

 "E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez, e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada...